A cerca de 10 mil anos atrás se estabeleceu o início da relação humana com o gato, apesar de soar como muito antiga, é bem mais recente que a do cão por exemplo, além do período cronológico, o que mais diferencia o processo de domesticação entre essas duas espécies, foi a influência do homem sobre as características atávicas intrínsecas desses animais. A partir do momento que os gatos se beneficiaram da abundância de roedores presentes em locais de armazenamento de grãos destinados à alimentação humana, ambos alcançaram uma relação biologica harmônica de mutualismo, ou seja, alguns autores descrevem esse processo como uma “auto-domesticação”, uma evolução onde ambos prosperaram, porém sem que a espécie humana gerasse modificações relevantes no comportamento do gato, apenas percebemos que a convivência do felino em sinantropia resultaria em abundância de alimento para ambos. A definição de domesticação, pontua que a espécie passa a depender do homem para abrigo, obtenção do alimento e controle de atitudes e funções, inclusive da reprodução, o gato não se enquadra nessas características, por conseguinte concluímos que o paciente felino se trata de uma espécie ainda em processo de domesticação.

Em síntese, nós nos conectamos com os felinos exatamente pela característica selvagem de exímio caçador solitário, e a permanência do perfil comportamental íntimo comparado ao seu ancestral selvagem é o que acarreta em repercussões indesejáveis para os tutores contemporâneos do denominado gato-doméstico. Entender a evolução biológica do gato é imprescindível para assimilarmos as causas de estresse presentes no cotidiano desse animal nos dias atuais e a influência do mesmo na predisposição de alterações físicas e comportamentais.

Problema comportamental é qualquer comportamento apresentado pelo animal e julgado pelo tutor como inaceitável, muito embora muitas dessas manifestações sejam expressões instintivas do repertório comportamental espécie-específico do gato, como marcação territorial por arranhadura e urina, resultando em um equívoco do tutor ao gerar expectativas utópicas sobre aquele animal.  

O Médico Veterinário solicitado para atender essa demanda comportamental deve compreender e respeitar essa ancestralidade felina, com propósito de estabelecer o melhor manejo, a fim de minimizar os diversos problemas associados ao estresse. 

Sabemos então, que o gato adorado como Deus no Egito e queimado na fogueira com as “bruxas” no período da inquisição, é o mesmo gato que chega aos consultórios no presente ano. Então o que mudou? Primariamente o tipo de manejo, o paciente felino no decorrer desse período passou de comensal controlador de pragas para membro efetivo da família humana, portanto houve uma conversão no território do gato, dos desertos e savanas africanos, para o apartamento em grandes metrópoles, muitas vezes dividido com outros indivíduos da mesma espécie.

A palavra Estresse descreve do ponto de vista biológico um complexo de alterações fisiológicas e comportamentais, induzidas por estímulos individualmente estressores, interposto principalmente pelo eixo hipotálamo-hiófise-adrenal e sistema simpato-adreno-medular. 

Atualmente o estresse ainda pode ser subclassificado como “Eustress” e “Distress”, sabendo que não é apenas a natureza do estímulo estressor, mas também o grau e a capacidade do indivíduo de lidar com a situação, a correlação a um estressor nem sempre está ligada a cenários negativos.

O eustress ou eustresse traduzido para o português, utiliza dos mecanismos neuro humorais acima citados, aumentando frequência cardíaca, midríase entre outros efeitos adrenérgicos, porém está relacionado a algo dentro da capacidade de resolução do indivíduo, gera emoção, aumenta o foco e o desempenho, um bom exemplo implicado é a reação adrenérgica desencadeada por um felino no momento de uma caçada, seja a uma presa viva ou mesmo um brinquedo, o eustresse apesar de interferir no seu equilíbrio, não é prejudicial para o sujeito, sendo fundamental para a saúde. O “distress”, distresse no português, está relacionado a um fator estressor que também desencadeia uma reação simpática de luta ou fuga, porém superando a habilidade de enfrentamento do indivíduo, tende a ser crônico, gera ansiedade, sentimentos desagradáveis, diminuição do foco e atenção e culmina em problemas de ordem comportamental e física, o modelo mais claro para ilustrar esse tipo de resposta, seria conflito entre gatos em residências com mais de um felino, na qual o indivíduo agredido não pode se esquivar dos ataques constantes do agressor, este estresse, tem um efeito negativo sobre o bem estar do indivíduo. 

Na atualidade a maioria dos gatos que possuem um tutor, vivem estritamente dentro de casa e castrados, esse tipo de manejo parte de recomendações veterinárias para prevenção de acidentes e controle de doenças infecciosas e parasitárias, mas ao prender o gato, surge a necessidade de criar um ambiente enriquecido, para que o felino possa expressar seus comportamentos naturais e evitar situações que fomentem medo, ansiedade e distresse. 

Baseado em evidências, observamos que os gatos que vivem em ambiente urbano e em alta densidade populacional, estão propensos a desenvolver estresse crônico, isso se dá pela dificuldade do indivíduo de estabelecer o controle do seu ambiente e de resolver conflitos com gatos que dividam a mesma residência. A relação humano gato deficiente e ambientes estéreis, ou seja, sem estímulo cognitivo (eustresse), também podem acarretar elevação do distresse, o que culmina no surgimento de doenças físicas e comportamentais.

O estresse reverbera na saúde física do gato, causando supressão das funções do sistema imunitário, perda da integridade da barreira intestinal, o que aumenta a permeabilidade e propicia inflamação a nível de estômago e intestinos, também é evidente a ação da ativação adrenérgica frente ao desenvolvimento de cistite intersticial felina e ainda pode se correlacionar uma ligação entre pele e sistema nervoso, que desencadeia ou perpetua o prurido em doenças alérgicas. 

No que concerne a alterações comportamentais, o estresse atua inibindo a expressão do comportamento natural, por vezes o paciente acometido, passa grande parte do dia escondido, disponibilizando pequena porcentagem do tempo de vigília em atividades exploratórias e lúdicas e em comportamentos afiliativos intra ou extra específicos. A cronicidade do estresse pode levar a anorexia ou polifagia, eliminação inapropriada, agressividade redirecionada e surgimento de comportamentos compulsivos, como hiperestesia, alotriofagia e tricotilomania. 

Toda família Felidae, é conhecida por possuir papilas filiformes queratinizadas dispostas médio-lateralmente na superfície dorsal da língua, uma das funções dessas papilas é a realização do hábito etológico de cuidado com a pele e pelame, este processo é denominado “grooming”, e beneficia os felinos por remover pelos mortos, sujidades e ectoparasitos bem como auxilia na termorregulação. Sabe-se que gatos ocupam cerca de 12 a 16h diárias em períodos de sono e descanso, e durante os momentos de vigília, até 25-30% são dispostos a realização do grooming. 

Sob episódios de ansiedade, que é definida como a antecipação apreensiva de possível perigo, real ou não, os gatos podem responder deflagrando o excesso de lambedura, o que distancia da etologia original do grooming, o gato passa a  realizar este comportamento de maneira repetitiva e exagerada, compulsivamente, em uma tentativa de escapar da situação ansiogênica, ou como meio de se distrair, o que gera rarefações pilosas, alopecias, úlceras e uma inflamação crônica na pele, acarretando um quadro clínico de dermatite psicogênica ou também conhecida como tricotilomania.

A coerência em identificar esse comportamento como compulsivo ou obsessivo-compulsivo, é que se comparam a distúrbios dessa natureza em humanos. A tricotilomania no homem, é um tipo de transtorno obsessivo-compulsivo, segundo o Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria.

Muito embora a fisiopatologia desse transtorno não seja totalmente compreendida, autores sugerem a baixa concentração de neurotransmissores, como serotonina, dopamina e as β- endorfinas, relacionadas à predisposição deste agravo, bem como é vista melhora clínica em tratamentos psicoativos baseados em inibidores seletivos da recaptação da serotonina como a fluoxetina ou o ansiolítico tricíclico, clomipramina.

Embora a tricotilomania não seja vista acometendo espécies de felinos selvagens em vida livre, a incidência desse comportamento tem sido diagnosticada em gatos selvagens em cativeiro, há evidências que a tricotilomania ocorre nestes animais em decorrência de enriquecimento ambiental ou social ineficiente, o que reafirma a prevalência da lambedura excessiva da pelagem em gatos domésticos de ambientes indoor, que da mesma forma são submetidos a agentes estressores pela condições de manejo inadequado. 

O sinal clínico preponderante é a alopecia e pelo quebradiço, particularmente na região inguinal, face interna das coxas, e tende a se estender para cauda, região dorsal lombo-sacra, e face lateral dos membros posteriores, pode ascender para região axilar e membros anteriores e ocasionalmente em demais sítios, alguns gatos lambem delicadamente e difusamente, enquanto outros persistem em repetir o comportamento em uma área restrita, o que acarreta em lesões de erosivas a ulcerativas, decorrentes da ação abrasiva das papilas da língua do felino. Estes sintomas podem ser comuns a dermatopatias alérgicas, parasitárias, fúngicas e de origem metabólica, portanto, bem como em todas as patologias de origem comportamental, deve ser descartada quaisquer doença física antes de gerir a suspeita para distúrbio psicogênico. 

Para conduzir o diagnóstico, a anamnese e histórico devem ser minuciosos e abranger integralmente as possíveis causas de estresse e ansiedade cujo gato possa ter sido submetido antes do surgimento dos sinais, bem como avaliação do ambiente no qual o felino vive e seus contactantes. O tricograma do paciente evidenciará pelos fraturados, e a instituição de corticoterapia experimental, auxilia no diagnóstico diferencial do prurido alérgico, uma vez que esteróides não tem nenhum efeito sobre a doença compulsiva. A biópsia tem um papel importante na confirmação da dermatite psicogênica, é esperado que a amostra apresente um corte histológico sem alterações, e caso exista algum achado, pode auxiliar na confirmação de um diferencial.  

O enriquecimento ambiental é uma estratégia importante no tratamento e na prevenção da dermatite psicogênica. Naturalmente, em uma doença desencadeada por um estressor, o melhor tratamento é a retirada do mesmo quando possível, e caso não seja, deve ser iniciada tentativa de adaptação do paciente à essa circunstância. O último consenso da Sociedade Internacional de Medicina Felina sobre as diretrizes das necessidades ambientais dos gatos, estabelece cinco pilares para alcançar um território felino saudável, são eles: 

  1. Fornecer um local seguro, isto é, uma área privada, muitas vezes elevada, onde o felino saiba que o fator estressor não o alcançará;
  2. Fornecer múltiplas e separadas fontes dos principais recursos ambientais: comida, água, caixas de areia, áreas de arranhar, áreas para brincar e de descanso, deste modo, minimizando a competição e conflito em casas com muitos gatos;
  3. Proporcionar oportunidade para brincar e exercer comportamento predatório, essa atividade melhora a auto-estima e libera neurotransmissores relacionados a satisfação, um ponto chave na substituição de comportamentos compulsivos;
  4. Fornecer interação consistente, previsível e positiva homem-gato, os felinos preconizam interagir em muita frequência e pouca intensidade; 
  5. Proporcionar um ambiente que respeite a importância do sentido do olfato, permitindo a marcação feromonal, prevenimos o surgimento de ansiedade e problemas de eliminação inapropriada e conflito.

A terapia para reversão de hábitos utilizada no tratamento em humanos, pode ser adaptada para felinos conforme uma rotina de exercícios físicos de aproximadamente 10 minutos duas vezes ao dia, fundamentada em estimular o paciente a brincar de caçar, a brincadeira estruturada deve conter as etapas de emboscar, perseguir, agarrar e “matar” o brinquedo, deste modo o felino acometido por tricotilomania, favorece a produção de dopamina e serotonina, tal como aumenta sua auto-estima, fatores que o tornam mais preparado para lidar com os desafios diários. 

Gustavo Parreiras
CRMV/RJ: 14407
Especialista em Medicina Felina através da Residência em Clínica Médica dos Gatos Domésticos da UFRRJ.
@gussparreiras
Atendimento clínico e comportamental nas clínicas em domicílio.
Tel de contato: (21) 951019730

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